"Mentes grandes discutem idéias; Mentes medianas discutem eventos e fatos; Mentes pequenas discutem pessoas." "Um homem pode fingir amar, ter fé, esperança e todos os outros méritos, mas é muito difícil fingir ser humilde. Logo se detecta a falsa humildade". D.L. Mood
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
A BENÇÃO DA HUMILDADE
Também esta é mais uma prova de que a Palavra de Deus é confiável, pois ela diz o seguinte acerca dos "últimos dias": "E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos" (Mt 24.12). Quem não cuida e não vigia, torna-se cada vez mais egoísta e nem o nota, mesmo sendo cristão. O egocentrismo, o culto ao eu se infiltra onde a Palavra de Deus é deixada de lado – e com isso é deixado de lado o relacionamento íntimo com Jesus Cristo. David H. Stern traduz essa passagem muito acertadamente da seguinte maneira: "O amor de muitas pessoas esfriará porque a Torá se afasta cada vez mais delas" (Novo Testamento judaico). Não se convive mais com a Sagrada Escritura. Mas é só através do contato com a Palavra de Deus, através do amor do Espírito Santo e da comunhão com Jesus Cristo que adquirimos a capacidade de sermos humildes.
Satanás abandonou a Palavra de Deus por seu orgulho sem limites – e caiu. Igualmente cristãos que não mais são dirigidos pela Palavra de Deus e pelo Seu Espírito Santo se tornam vítimas do orgulho. Tornam-se ambiciosos e se acham cada vez mais importantes – e a causa de Jesus é empurrada para segundo plano.
No Evangelho de Lucas um acontecimento nos mostra como o orgulho se manifesta e quais as suas conseqüências: "Reparando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhe uma parábola: Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, e te diga: Dá o lugar a este. Então irás, envergonhado, ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convidados. Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado" (Lc 14.7-11).
O Senhor nota quando somos orgulhosos
"Reparando como os convidados escolhiam os primeiros lugares..." O orgulho é uma coisa que nós, como filhos de Deus, não gostamos de expor publicamente, pois sabemos que é constrangedor quando é notado.
O orgulho começa no coração. O orgulho é algo sorrateiro, que entra devagarzinho em nosso coração, mudando nossa motivação e mudando a base de nosso querer e de nosso agir. Em geral não usamos de violência para chegar mais à frente. Tudo começa muito sutilmente, nos insinuamos com cuidado. Fazemos um jogo duplo com outros, colocando o olho nos melhores lugares.
Não creio que as pessoas da nossa história foram derrubando cadeiras e mesas para chegarem à frente e alcançarem os melhores lugares. Provavelmente eles foram cuidadosos e educados, mas agiram com um alvo em vista, que era o de ocupar o lugar de honra. Mas o Senhor o notou! Pensemos nisso: o primeiro que descobre orgulho em nossa vida é o Senhor – e Sua reação não se fará esperar. Ele olha diretamente para dentro do coração e fala: "A soberba do teu coração te enganou..." (Ob 1.3).
Orgulho não é coisa pequena
Poderia-se dizer que o que aconteceu aqui é uma bagatela da qual nem vale a pena falar. Tentar conseguir o melhor lugar em uma mesa não é muito bonito, mas também não é tão trágico assim; certamente existe orgulho pior. Mas o fato de Jesus ter notado o acontecido e de ter comentado a respeito mostra claramente como o orgulho é terrível aos olhos de Deus. Por quê?
1- Porque o orgulho procede de um cristianismo sem cruz
Em Filipenses 2.5-8 encontramos um padrão para nossa mentalidade e para nossas intenções: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz." Sua humilhação consistiu em não exigir o que era direito Seu. Ao invés de insistir em Sua semelhança com Deus, Ele humilhou-se a Si mesmo. Ele, diante de cuja palavra o Universo se abala; Ele, que é adorado e exaltado por todos os anjos criados; Ele, que não é criatura mas o próprio Criador – Ele se humilhou, sim, "tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz." Essa mentalidade que Jesus Cristo possuía é esperada de nós também. E quem não tem essa mentalidade não vive com a cruz e com o Crucificado, mas é contrário à cruz de Cristo. Uma pessoa assim, no fundo, é inimiga da cruz de Cristo por continuar sendo orgulhosa.
2- Porque o orgulho tem sua origem nas mais terríveis profundezas, ou seja, no próprio diabo
Nele nasceu o orgulho: "Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades no Norte" (Is 14.13). Satanás queria ser como Deus: "...subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo" (v. 14). Por isso o orgulho é tão terrível diante dos olhos de Deus e é condenado por Deus desde sua menor raiz.
3- Porque o orgulho provém da falta de temor de Deus
Em Provérbios 8.13 está escrito: "O temor do Senhor consiste em aborrecer o mal; a soberba, a arrogância, o mau caminho, e a boca perversa, eu os aborreço." O resultado da falta de temor de Deus sempre é o desprezo do nosso próximo, com uma valorização acentuada de si mesmo. Assim, os fariseus e escribas daquela época escolheram para si os melhores lugares à mesa. Onde os outros iriam sentar era indiferente para eles.
Hoje igualmente a falta de temor de Deus cresce ao ponto de chegar a um ódio pelos outros. Pessoas orgulhosas têm dificuldades em se relacionar com os outros e estão sempre prontas para brigar. Pois o orgulhoso tenta alcançar seus próprios alvos mesmo às custas da união. Por isso somos exortados tão seriamente: "Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3).
4- Porque o orgulho sempre traz consigo a queda
Provérbios 16.18 diz: "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda." A Bíblia Viva diz: "A desgraça está um passo depois do orgulho; logo depois da vaidade vem a queda." Isso combina exatamente com o que o Senhor Jesus diz em Lucas 14.8-9: "Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então irás, envergonhado, ocupar o último lugar." Na prática, o orgulho não nos leva a sermos mais reconhecidos e importantes no Reino de Deus, mas acontece exatamente o contrário: quando somos orgulhosos, somos cada vez menos importantes para o Reino de Deus, até ao ponto de sermos totalmente desqualificados.
Quem se considera muito importante como candidato a obreiro no Reino de Deus, facilmente pode ser degradado ao patamar de um jumento, o que pode ser ilustrado com muito acerto com o seguinte episódio: certa vez um seminarista, muito convencido e cheio de si, falou a um servo de Deus: "Deus precisa de mim. Quero servi-lO." O servo de Deus respondeu: "Jesus só falou uma vez que precisava de alguém – e esse alguém era um jumento" (comp. Mc 11.3).
Muitas vezes o orgulho não produz uma ampliação nos horizontes, uma expansão no ministério para o Senhor, como os orgulhosos muitas vezes pensam e querem, mas exatamente o contrário: eles se tornam imprestáveis para o serviço cristão e se tornam pequenos no Reino de Deus. A Bíblia diz em 2 Coríntios 10.18: "Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e, sim, aquele a quem o Senhor louva."
Por Jesus ter se humilhado tanto na cruz, "...Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome" (Fp 2.9). E exatamente este mesmo princípio Jesus reafirmou em Lucas 14.11: "Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado."
5- Porque a humilhação vem, muitas vezes, por meio de outras pessoas
É disso que o Senhor fala em Lucas 14.8b-9: "...para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então irás, envergonhado, ocupar o último lugar." Mesmo que o orgulho esteja relativamente escondido e se manifeste em segredo, um dia ele aparece e a humilhação se torna do conhecimento de todos. Meio que sorrateiramente, sem chamar muita atenção, alguns convidados se assentaram nos melhores lugares. Mas quando o anfitrião mandou que eles tomassem os lugares inferiores, todos ficaram sabendo.
É curioso observar que as pessoas orgulhosas são, muitas vezes, humilhadas exatamente por aquelas pessoas que elas queriam adular e agradar. No reino de Assuero, por exemplo, um certo Hamã gozava de todos os privilégios possíveis concedidos pelo rei (Et 3.1). Mas tão logo, através de Ester, sua esposa judia, Assuero ficou sabendo dos planos e das intenções orgulhosas de Hamã (ele queria enforcar o judeu Mardoqueu, por não o bajular, e queria mandar matar todos os judeus em um dia pré-determinado), iniciou-se a queda de Hamã de uma maneira que ninguém conseguiria deter: Hamã acabou enforcado juntamente com seus filhos (Et 7.10; 9.25).
6- Porque o orgulho produz insegurança
Muitas vezes as pessoas que têm uma tendência ao orgulho se mostram muito seguras de si, mas, na verdade, elas são movidas por uma estranha insegurança. Elas não estão firmes, não sabem qual o melhor caminho para si e não são confiáveis nas coisas espirituais. E isso acontece porque elas estão em um falso caminho, e porque no fundo de seu coração sabem que podem cair de onde se encontram: "Pois todo o que se exalta será humilhado..."
7- Porque só as pessoas humildes são íntimas do Senhor
Lucas 14.10 diz: "Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convidados." No início dizíamos que os orgulhosos levam uma vida que passa longe da cruz de Cristo, até contrária ao Senhor, e que os humildes, ao contrário, têm uma vida com Cristo em seu centro; essas pessoas vivem da Sua Palavra e têm a mentalidade do Senhor. Por isso, na parábola que estamos tratando, só o convidado humilde é chamado de "amigo": "Amigo, senta-te mais para cima." O Senhor não disse: "Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando"(Jo 15.14)?!
Só os humildes têm suas fronteiras ampliadas, só os humildes são exaltados. Por quê? Porque eles têm a mesma mentalidade que o seu Mestre. Ele disse: "Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado" (Lc 14.11).
O caminho para a verdadeira humildade
Só através de muita oração, e não através do simples pedido: "Senhor, humilha-me!" é que chegamos à humildade; somente através de uma decisão consciente de nossa vontade, que se transforma em ação, é que chegamos à humildade verdadeira. Jesus Cristo humilhou-se a si mesmo, pois a Bíblia diz: "...a si mesmo se humilhou" (Fl 2.8). Ele disse: "...agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro em meu coração está a tua lei" (Sl 40.8).
Na nossa parábola, o Senhor mostra como se pratica a humildade:
– "...não procures o primeiro lugar..." (Lc 14.8);
– "...vai tomar o último lugar..." (v. 10);
– "... o que se humilha..." (v. 11).
É imprescindível assumir uma atitude como João Batista teve, quando disse, olhando para Jesus: "Convém que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.30). É por isso que João Batista era tão grande aos olhos de Deus. O Senhor testemunhou acerca dele: "Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João" (Lc 7.28). Por isso é tão necessário eleger diariamente o caminho da humildade e ficar nele: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte" (1 Pe 5.6). Amém.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Um estudo sobre o vinho na Bíblia

Lc 7.33,34: "Porque veio João Batista
, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores. VINHO: FERMENTADO OU NÃO FERMENTADO?
Segue-se um exame da palavra bíblica mais comumente usada para vinho. A palavra grega para "vinho", em Lc 7.33, é oinos. Oinos pode referir-se a dois tipos bem diferentes de suco de uva: (1) suco não fermentado, e (2) vinho fermentado ou embriagante.
Esta definição apóia-se nos dados abaixo.
(1) A palavra grega oinos era usada pelos autores seculares e religiosos, antes da era cristã e nos tempos da igreja primitiva, em referencia ao suco fresco da uva (ver Aristóteles, Metereologica, 387.b.9-13). (a) Anacreontes (c. de 500 a.C.) escreve: "Esprema a uva, deixe sair o vinho [oinos]" (Ode 5). (b) Nicandro (século II a.C.) escreve a respeito de espremer uvas e chama de oinos o suco dai produzido (Georgica, fragmento 86). [c] Papias (60-130 d.C.), um dos pais da igreja primitiva, menciona que quando as uvas são espremidas produzem "jarros de vinho [oinos]" (citado por Ireneu, Contra as Heresias, 5.33.3 - 4). (d) Uma carta em grego escrita em papiro (P. Oxy. 729; 137 d.C.), fala de "vinho [oinos] fresco, do tanque de espremer" (ver Moulton e Milligan, The Vocabulary of the Greek Testament, p. 10). (e) Ateneu (200 d.C.) fala de um "vinho [oinos] doce", que "não deixa pesada a cabeça" (Ateneu, Banquete, 1.54). Noutro lugar, escreve a respeito de um homem que colhia uvas "acima e abaixo, pegando vinho [oinos] no campo" (1.54). Para considerações mais pormenorizadas sobre o uso de oinos pelos escritores antigos, ver Robert P. Teachout: "0 Emprego da palavra 'Vinho' no Antigo Testamento". (Dissertação de Th.D. no Seminário Teológico de Dallas, 1979).
(2) Os eruditos judeus que traduziram o AT do hebraico para o grego c. de 200 a.C. empregaram a palavra oinos para traduzir varias palavras hebraicas que significam vinho. Noutras palavras, os escritores do NT entendiam que oinos pode referir-se ao suco de uva, com ou sem fermentação.
(3) Quanto a literatura grega secular e religiosa, um exame de trechos do NT também revela que oinos pode significar vinho fermentado, ou não fermentado. Em Ef 5.18, o mandamento: "não vos embriagueis com vinho [oinos]" refere-se ao vinho alcoólico. Por outro lado, em Ap 19.15 Cristo é descrito pisando o lagar. 0 texto grego diz: "Ele pisa o lagar do vinho [oinos]" ; o oinos que sai do lagar é suco de uva (ver Is 16.10 nota; Jr 48.32,33 nota). Em Ap 6.6, oinos refere-se as uvas da videira como uma safra que não deve ser destruída. Logo, para os crentes dos tempos do NT, "vinho" (oinos) era uma palavra genérica que podia ser usada para duas bebidas distintivamente diferentes, extraídas da uva: o vinho fermentado e o não fermentado.(4) Finalmente, os escritores romanos antigos explicam com detalhes vários processos usados para tratar o suco de uva recém-espremido, especialmente as maneiras de evitar sua fermentação. (a) Columela (Da Agricultura, 12.29), sabendo que o suco de uva não fermenta quando mantido frio (abaixo de 10 graus C.) e livre de oxigênio, escreve da seguinte maneira: "Para que o suco de uva sempre permaneça tão doce como quando produzido, siga estas instruções: Depois de aplicar a prensa as uvas, separe o mosto mais novo [i.e., suco fresco], coloque-o num vasilhame (amphora) novo, tampe-o bem e revista-o muito cuidadosamente com piche para não deixar a mínima gota de água entrar; em seguida, mergulhe-o numa cisterna ou tanque de água fria, e não deixe nenhuma parte da ânfora ficar acima da superfície. Tire a ânfora depois de quarenta dias. 0 suco permanecera doce durante um ano" (ver também Columela: Agricultura e Arvores; Catão: Da Agricultura). 0 escritor romano Plinio (século I d.C.) escreve: "Tão logo tiram o mosto [suco de uva] do lagar, colocam-no em tonéis, deixam estes submersos na água até passar a primeira metade do inverno, quando o tempo frio se instala" (Plínio, Historia Natural, 14.11.83). Este método deve ter funcionado bem na terra de Israel (ver Dt 8.7; 11.11,12; SI 65.9-13).(b) Outro método de impedir a fermentação das uvas é ferve-las e fazer um xarope (para mais detalhes, ver a parte 2 deste estudo. Historiadores antigos chamavam esse produto de "vinho" (oinos). 0 Conego Farrar (Smith 's Bible Dictionary, p. 747) declara que "os vinhos assemelhavam-se mais a xarope; muitos deles não eram embriagantes". Ainda, 0 Novo Dicionário da Bíblia (p. 1665), observa que "sempre havia meios de conservar doce o vinho durante o ano inteiro".
O USO DO VINHO NA CEIA DO SENHOR.
Jesus usou uma bebida fermentada ou não fermentada de uvas, ao instituir a Ceia do Senhor (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.17-20; 1 Co 11.23-26)? Os dados abaixo levam a conclusão de que Jesus e seus discípulos beberam no dito ato suco de uva não fermentado.
(1) Nem Lucas nem qualquer outro escritor bíblico emprega a palavra "vinho" (gr. oinos) no tocante a Ceia do Senhor. Os escritores dos três primeiros Evangelhos empregam a expressão "fruto da vide" (Mt 26.29; Mc 14.25; Lc 22.18). 0 vinho não fermentado é o único "fruto da vide" verdadeiramente natural, contendo aproximadamente 20% de açúcar e nenhum álcool. A fermentação destrói boa parte do açúcar e altera aquilo que a videira produz. O vinho fermentado não é produzido pela videira.
(2) Jesus instituiu a Ceia do Senhor quando Ele e seus discípulos estavam celebrando a Páscoa. A lei da Páscoa em Ex 12.14-20 proibia, durante a semana daquele evento, a presença de seor (Ex 12.15), palavra hebraica para fermento ou qualquer agente fermentador. Seor, no mundo antigo, era freqüentemente obtido da espuma espessa da superfície do vinho quando em fermentação. Além disso, todo o hametz (i.e., qualquer coisa fermentada) era proibido (Ex 12.19; 13.7). Deus dera essas leis porque a fermentação simbolizava a corrupção e o pecado (cf. Mt 16.6,12; 1 Co S.7,8). Jesus, o Filho de Deus, cumpriu a lei em todas as suas exigências (Mt 5.17). Logo, teria cumprido a lei de Deus para a Páscoa, e não teria usado vinho fermentado.(3) Um intenso debate perpassa os séculos entre os rabinos e estudiosos judaicos sobre a proibição ou não dos derivados fermentados da videira durante a Páscoa. Aqueles que sustentam urna interpretação mais rigorosa e literal das Escrituras hebraicas, especialmente Ex 13.7, declaram que nenhum vinho fermentado devia ser usado nessa ocasião.(4) Certos documentos judaicos afirmam que o uso do vinho não fermentado na Páscoa era comum nos tempos do NT. Por exemplo: "Segundo os Evangelhos Sinóticos, parece que no entardecer da quinta-feira da última semana de vida aqui, Jesus entrou com seus discípulos em Jerusalém, para com eles comer a Páscoa na cidade santa; neste caso, o pão e o vinho do culto de Santa Ceia instituído naquela ocasião por Ele, como memorial, seria o pão asmo e o vinho não fermentado do culto Seder" (ver "Jesus". The Jewish Encyclopedia, edição de 1904. V.165).(5) No AT, bebidas fermentadas nunca deviam ser usadas na casa de Deus, e um sacerdote não podia chegar-se a Deus em adoração se tomasse bebida embriagante (Lv 10.9 nota). Jesus Cristo foi o Sumo Sacerdote de Deus do novo concerto, e chegou-se a Deus em favor do seu povo (Hb 3.1; 5.1-10).(6) 0 valor de um símbolo se determina pela sua capacidade de conceituar a realidade espiritual. Logo, assim como o pão representava o corpo puro de Cristo e tinha que ser pão asmo (i.e., sem a corrupção da fermentação), o fruto da vide, representando o sangue incorruptível de Cristo, seria melhor representado por suco de uva não fermentado (cf. 1 Pe 1.18,19). Uma vez que as Escrituras declaram explicitamente que o corpo e sangue de Cristo não experimentaram corrupção (Sl 16.10; At 2.27; 13.37), esses dois elementos são corretamente simbolizados por aquilo que não é corrompido nem fermentado.
(7) Paulo determinou que os coríntios tirassem dentre eles o fermento espiritual, i.e., o agente fermentador "da maldade e da malícia", porque Cristo é a nossa Páscoa (1 Co 5.6-E). Seria contraditório usar na Ceia do Senhor um símbolo da maldade. i.e., algo contendo levedura ou fermento, se considerarmos os objetivos dessa ordenança do Senhor. bem como as exigências bíblicas para dela participarmos.
Jo 2.11: "Jesus principiou assim os seus sinais em Cana da Galiléia e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. "
O VINHO: MISTURADO OU INTEGRAL?
Os dados históricos sobre o preparo e uso do vinho pelos judeus e por outras nações no mundo bíblico mostram que o vinho era: (a) freqüentemente não fermentado; e (b) em geral misturado com água. 0 capítulo anterior, aborda um dos processos usados para manter o suco da uva fresco em estado doce e sem fermentação. 0 presente estudo menciona dois outros processos de preparação da uva para posteriormente ser misturada com água.
(1) Um dos métodos era desidratar as uvas, borrifa-las com azeite para mante-las úmidas e guardá-las em jarras de cerâmica (Enciclopédia Bíblica Ilustrada de Zondervan, V. 882; ver também Columella, Sobre a Agricultura 12.44.1-8). Em qualquer ocasião, podia-se fazer uma bebida muito doce de uvas assim conservadas. Punha-se-lhes água e deixava-as de molho ou na fervura. Polibio afirmou que as mulheres romanas podiam beber desse tipo de refresco de uva, mas que eram proibidas de beber vinho fermentado (ver Polibio, Fragmentos, 6.4; cf. Plínio, História Natural, 14.11.81).
(2) Outro método era ferver suco de uva fresco até se tornar em pasta ou xarope grosso (mel de uvas); este processo deixava-o em condições de ser armazenado, ficando isento de qualquer propriedade inebriante por causa da alta concentração de açúcar, e conservava a sua doçura (ver Colurnella, Sobre a Agricultura, 12.19.1-6; 20.1-8; Plínio, Historia Natural, 14.11.80). Essa pasta ficava armazenada em jarras grandes ou odres. Podia ser usada como geléia para passar no pão, ou dissolvida em água para voltar ao estado de suco de uva (Enciclopédia Bíblica Ilustrada, de Zondervan, V. 882-884). É provável que a uva fosse muito cultivada para produção de açúcar. 0 suco extraído no lagar era engrossado pela fervura até tornar-se em liquido conhecido como "mel de uvas" (Enciclopédia Geral Internacional da Bíblia, V. 3050). Referencias ao mel na Bíblia freqüentemente indicam o mel de uva (chamado debash pelos judeus), em vez do mel de abelha.
(3) A água, portanto, pode ser adicionada a uvas desidratadas, ao xarope de uvas e ao vinho fermentado. Autores gregos e romanos citavam varias proporções de mistura adotadas. Homero (Odisséia, IX 208ss.) menciona uma proporção de vinte partes de água para uma parte de vinho. Plutarco (Symposiacas, III.ix) declara: "Chamamos vinho diluído, embora o maior componente seja a água". Plínio (Historia Natural, XIV.6.54) menciona uma proporção de oito partes de água para uma de vinho.(4) Entre os judeus dos tempos bíblicos, os costumes sociais e religiosos não permitiam o uso de vinho puro, fermentado ou não. 0 Talmude (uma obra judaica que trata das tradições do judaísmo entre 200 a.C. e 200 d.C.) fala, em vários trechos, da mistura de água com vinho (e.g., Shabbath 77; Pesahim 1086). Certos rabinos insistiam que, se o vinho fermentado não fosse misturado com três partes de água, não podia ser abençoado e contaminaria quem o bebesse. Outros rabinos exigiam dez partes de água no vinho fermentado para poder ser consumido. (5) Um texto interessante temos no livro de Apocalipse, quando um anjo, falando do "vinho da ira de Deus", declara que ele será "não misturado", i.e., totalmente puro (Ap 14.10). Foi assim expresso porque os leitores da época entendiam que as bebidas derivadas de uvas eram misturadas com água (ver Jo 2.3 notas). Em resumo, o tipo de vinho usado pelos judeus nos dias da Bíblia não era idêntico ao de hoje. Tratava-se de (a) suco de uva recém-espremido; (b) suco de uva assim conservado; [c] suco obtido de uva tipo passas; (d) vinho de uva feito do seu xarope, misturado com água; e (e) vinho velho, fermentado ou não, diluído em água, numa proporção de até 20 para 1. Se o vinho fermentado fosse servido não diluído, isso era considerado indelicadeza, contaminação e não podia ser abençoado pelos rabinos. A luz desses fatos, é ilícita a pratica corrente de ingestão de bebidas alcoólicas com base no uso do "vinho" pelos judeus dos tempos bíblicos. Além disso, os cristãos dos dias bíblicos eram mais cautelosos do que os judeus quanto ao uso do vinho (ver Rm 14.21 nota; 1 Ts 5.6 nota; 1 Tm 3.3 nota; Tt 2.2 nota).
GLÓRIA DE JESUS MANIFESTA ATRAVÉS DO VINHO.
Em Jo 2, vemos que Jesus transformou água em "vinho" nas bodas de Caná. Que tipo de vinho era esse? Conforme já vimos, podia ser fermentado ou não, concentrado ou diluído. A resposta deve ser determinada pelos fatos contextuais e pela probabilidade moral. A posição desta Bíblia e Estudo é que Jesus fez vinho (oinos) suco de uva integral e sem fermentação. Os dados que se seguem apresentam fortes razoes para rejeição da opinião de que Jesus fez vinho embriagante. (1) 0 objetivo primordial desse milagre foi manifestar a sua gloria (2.11), de modo a despertar fé pessoal e a confiança em Jesus como o Filho de Deus, santo e justo, que veio salvar o seu povo do pecado (2.11; cf. Mt 1.21). Sugerir que Cristo manifestou a sua divindade como o Filho Unigênito do Pai (1.14), mediante a criação milagrosa de inúmeros litros de vinho embriagante para uma festa de bebedeiras (2.10 nota; onde subentende-se que os convidados já tinham bebido muito), e que tal milagre era extremamente importante para sua missão messiânica, requer um grau de desrespeito, e poucos se atreveriam a tanto. Será, porém, um testemunho da honra de Deus, e da honra e glória de Cristo, crer que Ele criou sobrenaturalmente o mesmo suco de uva que Deus produz anualmente através da ordem natural criada(ver 2.3 nota). Portanto, esse milagre destaca a soberania de Deus no mundo natural, tornando-se um símbolo de Cristo para transformar espiritualmente pecadores em filhos de Deus
(3.1-15). Devido a esse milagre, vemos a glória de Cristo "como a glória do Unigênito do Pai" (1.14; cf. 2.11).
(2) Contraria a revelação bíblica quanto a perfeita obediência de Cristo a seu Pai celestial (cf. 4.34; Fp 2.8,9) supor que Ele desobedeceu ao mandamento moral do Pai: "Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho... e se escoa suavemente", i.e., quando é fermentado (Pv 23.31). Cristo por certo sancionou os textos bíblicos que condenam o vinho embriagante como escarnecedor e alvoroçador (Pv 20.1), bem como as palavras de Hc 2.15: "Ai daquele que da de beber ao seu companheiro!... e o embebedas" (cf. Lv 10.8-11; Pv 31.4-7; Is 25.7; Rm 14.21).(3) Note, ainda, o seguinte testemunho da medicina moderna. (a) Os maiores médicos especialistas atuais em defeitos congênitos citam evidencias comprovadas de que o consumo moderado de álcool danifica o sistema reprodutivo das mulheres jovens, provocando abortos e nascimentos de bebes com defeitos mentais e físicos incuráveis. Autoridades mundialmente conhecidas em embriologia precoce afirmam que as mulheres que bebem até mesmo quantidades moderadas de álcool, próximo ao tempo da concepção (c. 48 horas), podem lesar os cromossomos de um óvulo em fase de liberação, e dai causar sérios distúrbios no desenvolvimento mental e físico do bebê. (b) Seria teologicamente absurdo afirmar que Jesus haja servido bebidas alcoólicas, contribuindo para o seu uso. Afirmar que Ele não sabia dos terríveis efeitos em potencial que as bebidas inebriantes tem sobre os nascituros é questionar sua divindade, sabedoria e discernimento entre o bem e o mal. Afirmar que Ele sabia dos danos em potencial e dos resultados deformadores do álcool, e que, mesmo assim, promoveu e fomentou seu uso, é lançar duvidas sobre a sua bondade, compaixão e seu amor. A única conclusão racional, bíblica e teológica acertada é que o vinho que Cristo fez nas bodas, a fim de manifestar a sua glória, foi o suco puro e doce de uva, e não fermentado.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
OITAVA BEM-AVENTURANÇA
Mt 5.10
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Quando a fé dos filhos de Deus se desenvolve suficientemente a ponto de se manifestar exteriormente, de modo que aqueles que não participam com eles da mesma experiência começam a notar, então o resultado é a perseguição. A perseguição a que Jesus faz referência não emana de causas puramente sociais, raciais, econômias ou políticas, antes se acha radicada na religião. É uma perseguição distintamente motivada “pela justiça”. Em virtude de os homens referidos desejarem estar em harmonia com Deus e viver em sintonia com a santa vontade de Deus é que perseveram na perseguição e se mantêm firme sem se importarem com o que venha a lhes acontecer. Os ímpios não podem tolerar os que aos olhos de Deus são considerados “justos”. O seu próprio caráter é um constante protesto contra o caráter de seus opositores. É por essa razão que o “mundo” odeia os filhos de Deus (Mt 10.22; 24.9; Jo 15.19; 1Jo 3.12,13). Esse ódio é que motiva a perseguição de que fala Mt 5.10.
O Senhor assegura que esses perseguidos são bem-aventurados. Lendo constantemente esta bem-aventurança, tendo-a, provavelmente, memorizado desde a infância (em qualquer idioma), já nos acostumamos a ela tanto que não sentimos mais o seu impacto original. A impressão que ela causou nas pessoas que ora ouviram a Jesus deve ter sido tremenda, pois era idéia bastante comum entre os judeus que todo sofrimento, inclusive a perseguição ( ver Lc 13.1-5), fosse uma indicação do desagrado de Deus e da especial maldade daquele que era assim afligido. Cristo, aqui, inverte esse ponto de vista, mas somente com referência àqueles que suportam perseguição por causa da justiça, por causa de Cristo mesmo (“por minha causa”) e por causa do reino dos céus (Mt 19.12).
Poderíamos acrescentar que a relevância desta bem-aventurança não é perdida tampouco por aqueles que hoje, enquanto este comentário está sendo lido, estão sendo perseguidos em virtude de sua lealdade a Cristo. Que jamais nos esqueçamos deles em nossas orações e de outras formas pelas quais poderiam ser beneficiados por nós! “Deles é o reino dos céus”, diz Jesus, voltando assim a impetrar a benção encontrada no final da primeira bem-aventurança. Toda a graça e toda a glória que resplandecem quando Deus em Cristo é reconhecido e é obedecido como Soberano é deles, mesmo agora, e será deles numa medida sempre crescente.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
SÉTIMA BEM-AVENTURANÇA
MT 5.9
Bem-aventutados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus
Aqui é impetrada uma benção sobre todos aqueles que, tendo recebido para si mesmo a reconciliação com Deus por meio da cruz, agora procuram, por meio de sua mensagem e conduta, ser instrumentos para comunicar este mesmo dom aos outros. Por meio da palavra e do exemplo, estes pacificadores, que amam a Deus, amam uns aos outros e até mesmo aos seus inimigos, também promovem a paz entre os homens.
Num mundo onde a paz é rompida, esta bem-aventurança revela que o Cristianismo é uma força “relevante”, vital e dinâmica. A “igreja” é incessantemente caluniada no sentido de que sua influência nesta direção é lamentavelmente insignificante. Se ao empregar a palavra “igreja” a referência é uma instituição na qual nada prevalece senão uma ortodoxia morta, a acusação pode ser procedente. Por outro lado, se a referência é ao “exército de Cristo”, ou seja, a soma total de todos os genuínos soldados Cristãos, homens e mulheres redimidos oriundos de todas as gerações, religiões e raças que pelejam a batalha do Senhor contra o mal em prol da justiça e da verdade, a resposta é, na forma de uma contra-pergunta: “Sem a influência deste poderoso exército, as condições do mundo atual não seriam muitíssimo piores? Não é a igreja o próprio salva-vidas no qual o mundo permanece flutuando?” (Gn 18.26,28-32).
Pacificadores genuínos são todos aqueles cujo líder é o Deus de paz (1Co14.33; Ef 6.15; 1Ts 5.23), que aspiram a viver em paz com todos os homens (Rm 12.18; Hb 12.14), proclamam o evangelho da paz(Ef 6.15) e modelam suas vidas em harmonia com o Príncipe da Paz (Lc 19.10; Jo 13.12-15; cf.Mt 10.8).
Entretanto, o evangelho da paz é, ao mesmo tempo, a pregação do Cristo Crucificado (1Co1.18). O homem, por natureza, querendo estabelecer sua própria justiça, não se sente disposto a aceitar este evangelho(1Co 1.23). por isso, sua proclamação provoca uma guerra em seu coração. Se pela graça de Deus o pecador, finalmente, se entrega e recebe o Príncipe da Paz como seu Salvador e Senhor pessoal, então ele talvez tenha de enfrentar outra batalha, ou seja, dentro de sua própria família. É por essa razão que Jesus, ao qualificar os pacificadores de bem-aventurados, não caiu em contradição quando disse: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Eu não vim trazer paz, e, sim espada... os inimigos do homem serão os de sua própria casa” (Mt 10.34-36). Entretanto, esta situação não é por culpa de Cristo, e, sim do homem. É Deus em Cristo quem prossegue insistindo com o homem a encontrar nele a reconciliação e a paz duradoura (Mt 11.27-30; 2Co 5.20).
Além do mais, esta não é uma paz a qualquer preço. Ela não é conduzida por meio de comprometer a verdade sob o disfarce do “amor”(?). Ao contrário disso, ela é uma paz preciosíssima para o coração de todos aqueles que falam a verdade em amor (Ef 4.15). Aqueles que, pela palavra e pelo exemplo, são promotores desta paz são também designados como bem-aventurados. O seu título é “filhos de Deus”, uma designação de elevada honra e dignidade, revelando com isso que, por meio de sua promoção da Paz, penetram na própria esfera de atividade de seu próprio Pai. São seus cooperadores. Por meio de sua atitude confiante e de muitas boas obras, realizadas em decorrência da gratidão e para glória de Deus, se transformam em agentes de seu Senhor, e por toda parte estão comprometidos na tarefa de erradicar o mal dos corações humanos, enchendo-os de tudo aquilo que é bom e nobre(Rm 8.23; Fl 4.8,9). Eles são, por assim dizer, “o Corpo de Paz” do próprio Deus. Já são filhos de Deus (1Jo 3.1). No dia do juízo sua gloriosa adoção como filhos será publicamente revelada (Rm 8.23; 1Jo3.2).
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
SEXTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-aventurados os de coração puro, porque eles verão a Deus.
Tem-se afirmado amiúde que os puros de coração são as pessoas sinceras e honestas, os homens que possui integridade. Um passeio pelo Sl 24.3,4 parece confirmar isto:
“Quem subirá ao monte do Senhor?
Quem há de permanecer no seu Santo monte?
“O que é limpo de mãos e puro de coração; que não entrega sua alma à falsidade nem jura dolosamente.”
A pureza de coração é também enaltecida no Sl 73.1. Semelhantemente, em 1Tm 1.5, puro é sinônimo de sincero. E examina-se também 2Tm 2.22 2 1Pe 1.22. Tudo isso poderia conduzir-nos facilmente a conclusão de que as pessoas que são designadas como bem-aventuradas na sexta bem-aventurança são, sem nenhuma outra qualidade, os indivíduos sinceros, os homens que pensam, falam e agem sem hipocrisia.
Ora, não pode haver dúvidas sobre o fato de que a sinceridade, honestidade, a condição de ser isento de dolo é certamente a ênfase aqui. Por contraste com toda duplicidade humana, seja ela farisaica ou de outra espécie, Jesus pronuncia sua bênção sobre pessoas cuja manifestação exterior está em harmonia com a sua disposição interior.
Não obstante, um estudo do contexto com cada uma das referências precedentes torna claro que é mister acrescentar-se algo. A sinceridade ou integridade não é suficiente em e por si mesma. Um homem pode estar sinceramente certo, como também pode estar sinceramente errado. Sem dúvida que os profetas de Baal eram realmente sinceros quando desde manhã até ao meio-dia saltavam sobre o altar, retalhando-se com facas e clamando sem cessar: “Ah! Baal, responde-nos!” (1Rs 18.26-28). Porém, eram sinceros na direção errada. Assim também, numa passagem que é citada com freqüência na explicação da sexta bem-aventurança (Gn 20.6), o próprio Senhor testifica que Abimeleque, na integridade de seu coração, defraudava Abraão, levando Sara. Não obstante, o Senhor não aprovou o que o rei fizera e o ameaçou de morte caso não devolvesse Sara ao seu legítimo marido (v.7). De forma semelhante, os “puros de coração” do Sl 73.1 são aqueles que com toda sinceridade são guiados “pelos conselhos de Deus” (v.24). A fé não fingida 1Tm 1.5 adere à “sã doutrina” (v.10). E as pessoas a quem Pedro faz referência (1Pe 1.22) são aquelas que purificam suas almas “nas obediências à verdade.
Portanto, é evidente que a bênção da sexta bem-aventurança não é pronunciada indiscriminadamente sobre todos quantos são sinceros, mas, antes, sobre aqueles que, em adoração ao Deus verdadeiro, em consonância com a verdade revelada em sua Palavra, se empenham sem hipocrisia para guardá-lo e glorificá-lo. Estes – e somente estes! – são “os puros de coração”. Eles adoram a Deus “em espírito e em verdade”. (Jo 4.24), e amam meditar e praticar as virtudes mencionada em 1Co 13; Gl 5.22,23; Ef 4.32; 5.1; Fp 2.1-4; 4.8,9; Cl 3.1-17; etc. Seu coração, a própria fonte principal das disposições tanto quanto dos sentimentos e pensamentos (Mt 15.19; 22.37; Ef 1.18; 3.17; Fp 1.7; 1Tm 1.5), é uma só melodia com o coração de Deus.
Daí não ser realmente surpreendente lermos que os puros de coração “verão a Deus”, e que isso constitui a essência de sua bem-aventurança. O homem cujo deleite não repousa verdadeiramente nas coisas pertencentes a Deus não é capaz de apreciar o amor de Deus em Cristo para com os pecadores. A semelhança é o pré-requisito indispensável da comunhão e compreensão pessoais. Para que alguém conheça a Deus é preciso que seja semelhante a ele. Assim como para o caçador desprovido de qulquer conhecimento e apreciação pela música, a voz do vento que soa através da floresta
Nada significa além da possibilidade de a lebre sair da sua toca e torna-se uma vítima fácil, enquanto para o seu companheiro Mozart o mesmo som profundo significa uma nota majestosa do grande órgão de Deus, assim também, para o impuro, Deus permanece desconhecido, mas para quem é “imitador de Deus como filho amado e anda nos seu amor”, ele se revela a si mesmo.
Ora a beleza desta visão de Deus, esta percepção espiritual de seu ser e de seus atributos, e o deleitar-se neles, é que produzem transformação (2Co 3.18). “Entretanto, aqui na terra é ainda um “ver como um espelho, obscuramente”, porém no céu e no universo renovado, em que as condições do céu serão encontradas também na terra (AP 21.10), de sorte que “ a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar” (Is 11.9), essa visão beatificada equivalerá à comunhão sem pecado e ininterrupta das almas de todos os redimidos com Deus em Cristo, um contemplar “face a face” (1Co 13.12).
Quando em justiça por fim teu rosto glorioso puder ver,
Quando toda noite atroz tiver passado
E me vir acordado ao teu lado,
Para ver a glória permanente,
Então só então estarei satisfeito. (F.F Bulaard, baseado no Salmo 17.15)
Assim se cumprirá a oração de Jesus: “Pai, a minha vontade é que onde eu estivou estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me confiaste, porque amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24).
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
QUINTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-aventurado os misericordiosos, porque receberão misericórdia.
Misericórdia é amor demonstrado em favor de quem vive em desgraça, e um espírito perdoador para com o pecador: Ela abrange tanto um sentimento de bondade quanto um ato bondoso. Vemo-la exemplificada na parábola do bom samaritano (Lc 10), e especialmente em Cristo, o misericordioso Sumo Sacerdote (Hb 2.7).
Embora seja falta de realismo negar que, devido à disposição amorosa de Deus, há evidência de compaixão e bondade ao nosso redor, lembradas e esquecidas, mesmo no mundo dos não-regenerados (At 28.2), a misericórdia de que fala esta bem-aventurança nasce “da experiência pessoal com a misericórdia de Deus” (Lenski). Como tal, ela é uma virtude peculiarmente Cristã, que vale também para as demais características mencionadas nas bem-aventuranças. Todas elas indicam qualidades dos cidadãos do reino do céu. A esse respeito não se deve esquecer que, enquanto os romanos falavam de quatro virtudes cardeais – sabedoria, justiça, temperança e coragem -, a misericórdia não figurava entre elas. E para obter-se um ponto de vista equilibrado de como aparece esta graça no mundo, é justo confrontar At 28.2 com Pv 12.10: “ mas o coração dos perversos é cruel.”
É digno de nota que as escrituras repetidas vezes exortam os crentes a demonstrarem misericórdia, movidos por gratidão, para eles mesmos sejam tratados com misericórdia. Um notável exemplo é a parábola do servo incompassivo (Mt 18.23-25). Ver também Mt 25.31-46; Rm 15.7,25-27; 2Co 1.3,4; Ef 4.32; 5.1; Cl 3.12-14. Essa misericórdia deve ser exercida em favor daqueles que pertencem à “família da fé”, porém não deve limitar-se a eles (Gl 6.10). Na verdade ela deve ser exercida em prol de “todos os homens”, não excluindo nem mesmo aqueles que odeiam e perseguem os crentes(Mt 5.44-48). Percebe-se imediatamente que, se o que está implícito na quinta bem-aventurança fosse posto em prática com maior zelo e consciência, a pregação do evangelho seria muito mais eficaz! Que benção para a humanidade seria!
“Porque misericórdia lhes será concedida.” Aqueles – e tão somente aqueles! – que exercem misericórdia como recompensa, como pode comprovar-se algumas passagens mencionadas no parágrafo anterior, como também de 2Sm 22.26; Mt 6.14-15; Tg 2.13. Quando essa semente de ouro é semeada, efetua-se uma colheita muitíssimo abundante (Mt 7.2; Lc 6.38).
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
QUARTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-Aventurados os famintos e os sedentos de justiça, porque eles serão plenamente saciados.
Esta justiça consiste em uma perfeita conformidade com a santa lei de Deus, ou seja, com a sua vontade. É antes de tudo uma justiça por imputação: “Ele [Abraão] creu no Senhor, e isso lhe foi computado por justiça” (Gn 15.6). O homem é incapaz de merecer esse direito diante de Deus. Nenhuma soma de boas obras poderá expiar seu pecado. De fato, “Toda as nossas justiças[são] como trapo de imundícia” (Is 64.6). Nenhum tipo de purificação humana, seja cerimonial ou de outro tipo, pode lavar o pecado: Pelo que ainda que te laves com salitre, e amontoes potassa, continua a mácula da tua iniqüidade perante mim, diz o Senhor Deus”(Jr 2.22). Nenhum mero ser humano é capaz de fazer expiação pelo pecado de seu irmão: “Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode redimir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate” (Sl 49.7). De fato, no tocante ao próprio homem, a situação é inteiramente sem remédio. Sua necessidade principal, básica e irremediável é estar ele em perfeita harmonia com Deus; e este é também o alvo que ele jamais poderá atingir: “como pode o homem ser justo para com Deus?”(Jó 9.2).
Nessa situação irremediável e horrível foi que o filho de Deus, de sua glória e soberania, entrou. Foi ele(juntamente com o Pai e o Espírito, o único e verdadeiro Deus) que veio para o resgate, quando todos os demais fracassaram. “Então disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração está tua lei”(Sl 40.7,8). A maneira como resgate do pecador seria realizado e a salvação providenciada retratada em Is 53: “Mas ele foi traspassado pela nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidade; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo cainho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos”(vv.5 e 6). E assim Emanuel foi destinado a ser “o Senhor justiça nossa”(Jr 23.6). Por intermédio dele, como uma redenção, os pecados de seu povo foram livremente perdoados, de tal modo que Davi podia cantar: “Bem-aventurado é aquele cuja a iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto” Sl 32.1.
Tudo isso, normalmente, era do conhecimento de Jesus quando disse: “Bem-aventurados são os que tem fome e sede de justiça.” Mesmo durante a sua vivencia terrena ele era plenamente conhecedor de sua função como substituto. Não foi precisamente com finalidade de exercer esse oficio que ele deixou o seu lar celestial?(2Co 8.9). E não era precisamente em favor de seu povo que ele iria derramar seu sangue?(Lc 22.19,20; 1Co 11.24,25; cf. Jo 10.11,28; At 20.28; Ef 1.7,14; Cl 1.14; Hb 9.12; 1Pe 1.19; Ap 5.9). Além disso, o fato de que a justiça do homem está baseada na misericórdia de Deus e não nas obras ou méritos humanos é uma verdade que não carecia esperar por Paulo(Rm 4.3,9; Gl 3.6) para ser descoberta . Não apenas por Moisés(Gn 15.6) e Davi(Sl 32.1) a conheciam, mas certamente o Fariseu e o Publicano(Lc 18.9-14; ver especialmente os vv. 13e 14). É verdade que o ensino do Antigo Testamento e o de Jesus preparam o caminho para uma exposição mais detalhada e mais ampla dessa doutrina pelo apóstolo dos gentios.
Não obstante, é evidente que aqui em Mt 5.6 Cristo se refere a uma justiça não meramente por imposição, mas também por comunicação; refere-se não meramente a uma condição jurídica, mas também uma conduta ética; pode-se ver isso de forma clara por meio de Mt 6.1: “Cuidem para que não pratiquem a sua justiça diante do povo”, e ver também Mt 5.10,20-48. As duas (justiças) são inseparáveis. Embora seja impossível que as boas obras justifiquem alguém, é igualmente impossível que uma pessoa justificada possa viver sem praticar boas obras. O termo “justiça”, na forma usada por Cristo, é, portanto, muito abrangente, envolvendo tanto a de caráter forense como a caráter ético.
A relação entre a justiça apresentada por Cristo e a “justiça dos fariseus” está em que a primeira é interior, e a segunda é geralmente exterior; a primeira é do coração, a segunda é predominantemente de aparência exterior; a primeira é genuína, a segunda é com muita freqüência um produto falsificado. Cf. Mt 5.20-6.18.
“ Porque eles serão plenamente saciados” (literalmente: “cheios”). Notar, contudo, que não se trata daqueles que meramente sentem que “algo vai mal”, mas somente aqueles que têm “fome e sede” de justiça é que serão cheios. A justiça imputada e comunicada por Deus deve ser um objetivo de intenso desejo, de ardente anelo e de busca incansável. Cf. Sl 42.1: “Como suspira a corsa pelas correntes das águas...” Cf. Is 55.1; Am 8.1; Jo 4.34; 6.35; 7.37 Ap 22.17.
Como esta fome e sede de justiça serão plenamente saciadas? Pela imputação dos méritos de Cristo. Assim obtemos uma justiça de condição. Pela obra santificadora do Espírito Santo. Assim obtemos uma justiça de condição interior e conduta exterior. Cf Rm 8.3 – 5; 2Co 3.18; 2Ts 2.13. Estas duas (justiças) são inseparáveis: aqueles por quem Cristo morreu são justificados pelo Espírito Santo. Portanto, aqueles cujos pecados são perdoados oferecem sacrifício de ações de graças.