MT 5.9
Bem-aventutados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus
Aqui é impetrada uma benção sobre todos aqueles que, tendo recebido para si mesmo a reconciliação com Deus por meio da cruz, agora procuram, por meio de sua mensagem e conduta, ser instrumentos para comunicar este mesmo dom aos outros. Por meio da palavra e do exemplo, estes pacificadores, que amam a Deus, amam uns aos outros e até mesmo aos seus inimigos, também promovem a paz entre os homens.
Num mundo onde a paz é rompida, esta bem-aventurança revela que o Cristianismo é uma força “relevante”, vital e dinâmica. A “igreja” é incessantemente caluniada no sentido de que sua influência nesta direção é lamentavelmente insignificante. Se ao empregar a palavra “igreja” a referência é uma instituição na qual nada prevalece senão uma ortodoxia morta, a acusação pode ser procedente. Por outro lado, se a referência é ao “exército de Cristo”, ou seja, a soma total de todos os genuínos soldados Cristãos, homens e mulheres redimidos oriundos de todas as gerações, religiões e raças que pelejam a batalha do Senhor contra o mal em prol da justiça e da verdade, a resposta é, na forma de uma contra-pergunta: “Sem a influência deste poderoso exército, as condições do mundo atual não seriam muitíssimo piores? Não é a igreja o próprio salva-vidas no qual o mundo permanece flutuando?” (Gn 18.26,28-32).
Pacificadores genuínos são todos aqueles cujo líder é o Deus de paz (1Co14.33; Ef 6.15; 1Ts 5.23), que aspiram a viver em paz com todos os homens (Rm 12.18; Hb 12.14), proclamam o evangelho da paz(Ef 6.15) e modelam suas vidas em harmonia com o Príncipe da Paz (Lc 19.10; Jo 13.12-15; cf.Mt 10.8).
Entretanto, o evangelho da paz é, ao mesmo tempo, a pregação do Cristo Crucificado (1Co1.18). O homem, por natureza, querendo estabelecer sua própria justiça, não se sente disposto a aceitar este evangelho(1Co 1.23). por isso, sua proclamação provoca uma guerra em seu coração. Se pela graça de Deus o pecador, finalmente, se entrega e recebe o Príncipe da Paz como seu Salvador e Senhor pessoal, então ele talvez tenha de enfrentar outra batalha, ou seja, dentro de sua própria família. É por essa razão que Jesus, ao qualificar os pacificadores de bem-aventurados, não caiu em contradição quando disse: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Eu não vim trazer paz, e, sim espada... os inimigos do homem serão os de sua própria casa” (Mt 10.34-36). Entretanto, esta situação não é por culpa de Cristo, e, sim do homem. É Deus em Cristo quem prossegue insistindo com o homem a encontrar nele a reconciliação e a paz duradoura (Mt 11.27-30; 2Co 5.20).
Além do mais, esta não é uma paz a qualquer preço. Ela não é conduzida por meio de comprometer a verdade sob o disfarce do “amor”(?). Ao contrário disso, ela é uma paz preciosíssima para o coração de todos aqueles que falam a verdade em amor (Ef 4.15). Aqueles que, pela palavra e pelo exemplo, são promotores desta paz são também designados como bem-aventurados. O seu título é “filhos de Deus”, uma designação de elevada honra e dignidade, revelando com isso que, por meio de sua promoção da Paz, penetram na própria esfera de atividade de seu próprio Pai. São seus cooperadores. Por meio de sua atitude confiante e de muitas boas obras, realizadas em decorrência da gratidão e para glória de Deus, se transformam em agentes de seu Senhor, e por toda parte estão comprometidos na tarefa de erradicar o mal dos corações humanos, enchendo-os de tudo aquilo que é bom e nobre(Rm 8.23; Fl 4.8,9). Eles são, por assim dizer, “o Corpo de Paz” do próprio Deus. Já são filhos de Deus (1Jo 3.1). No dia do juízo sua gloriosa adoção como filhos será publicamente revelada (Rm 8.23; 1Jo3.2).
"Mentes grandes discutem idéias; Mentes medianas discutem eventos e fatos; Mentes pequenas discutem pessoas." "Um homem pode fingir amar, ter fé, esperança e todos os outros méritos, mas é muito difícil fingir ser humilde. Logo se detecta a falsa humildade". D.L. Mood
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
SÉTIMA BEM-AVENTURANÇA
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
SEXTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-aventurados os de coração puro, porque eles verão a Deus.
Tem-se afirmado amiúde que os puros de coração são as pessoas sinceras e honestas, os homens que possui integridade. Um passeio pelo Sl 24.3,4 parece confirmar isto:
“Quem subirá ao monte do Senhor?
Quem há de permanecer no seu Santo monte?
“O que é limpo de mãos e puro de coração; que não entrega sua alma à falsidade nem jura dolosamente.”
A pureza de coração é também enaltecida no Sl 73.1. Semelhantemente, em 1Tm 1.5, puro é sinônimo de sincero. E examina-se também 2Tm 2.22 2 1Pe 1.22. Tudo isso poderia conduzir-nos facilmente a conclusão de que as pessoas que são designadas como bem-aventuradas na sexta bem-aventurança são, sem nenhuma outra qualidade, os indivíduos sinceros, os homens que pensam, falam e agem sem hipocrisia.
Ora, não pode haver dúvidas sobre o fato de que a sinceridade, honestidade, a condição de ser isento de dolo é certamente a ênfase aqui. Por contraste com toda duplicidade humana, seja ela farisaica ou de outra espécie, Jesus pronuncia sua bênção sobre pessoas cuja manifestação exterior está em harmonia com a sua disposição interior.
Não obstante, um estudo do contexto com cada uma das referências precedentes torna claro que é mister acrescentar-se algo. A sinceridade ou integridade não é suficiente em e por si mesma. Um homem pode estar sinceramente certo, como também pode estar sinceramente errado. Sem dúvida que os profetas de Baal eram realmente sinceros quando desde manhã até ao meio-dia saltavam sobre o altar, retalhando-se com facas e clamando sem cessar: “Ah! Baal, responde-nos!” (1Rs 18.26-28). Porém, eram sinceros na direção errada. Assim também, numa passagem que é citada com freqüência na explicação da sexta bem-aventurança (Gn 20.6), o próprio Senhor testifica que Abimeleque, na integridade de seu coração, defraudava Abraão, levando Sara. Não obstante, o Senhor não aprovou o que o rei fizera e o ameaçou de morte caso não devolvesse Sara ao seu legítimo marido (v.7). De forma semelhante, os “puros de coração” do Sl 73.1 são aqueles que com toda sinceridade são guiados “pelos conselhos de Deus” (v.24). A fé não fingida 1Tm 1.5 adere à “sã doutrina” (v.10). E as pessoas a quem Pedro faz referência (1Pe 1.22) são aquelas que purificam suas almas “nas obediências à verdade.
Portanto, é evidente que a bênção da sexta bem-aventurança não é pronunciada indiscriminadamente sobre todos quantos são sinceros, mas, antes, sobre aqueles que, em adoração ao Deus verdadeiro, em consonância com a verdade revelada em sua Palavra, se empenham sem hipocrisia para guardá-lo e glorificá-lo. Estes – e somente estes! – são “os puros de coração”. Eles adoram a Deus “em espírito e em verdade”. (Jo 4.24), e amam meditar e praticar as virtudes mencionada em 1Co 13; Gl 5.22,23; Ef 4.32; 5.1; Fp 2.1-4; 4.8,9; Cl 3.1-17; etc. Seu coração, a própria fonte principal das disposições tanto quanto dos sentimentos e pensamentos (Mt 15.19; 22.37; Ef 1.18; 3.17; Fp 1.7; 1Tm 1.5), é uma só melodia com o coração de Deus.
Daí não ser realmente surpreendente lermos que os puros de coração “verão a Deus”, e que isso constitui a essência de sua bem-aventurança. O homem cujo deleite não repousa verdadeiramente nas coisas pertencentes a Deus não é capaz de apreciar o amor de Deus em Cristo para com os pecadores. A semelhança é o pré-requisito indispensável da comunhão e compreensão pessoais. Para que alguém conheça a Deus é preciso que seja semelhante a ele. Assim como para o caçador desprovido de qulquer conhecimento e apreciação pela música, a voz do vento que soa através da floresta
Nada significa além da possibilidade de a lebre sair da sua toca e torna-se uma vítima fácil, enquanto para o seu companheiro Mozart o mesmo som profundo significa uma nota majestosa do grande órgão de Deus, assim também, para o impuro, Deus permanece desconhecido, mas para quem é “imitador de Deus como filho amado e anda nos seu amor”, ele se revela a si mesmo.
Ora a beleza desta visão de Deus, esta percepção espiritual de seu ser e de seus atributos, e o deleitar-se neles, é que produzem transformação (2Co 3.18). “Entretanto, aqui na terra é ainda um “ver como um espelho, obscuramente”, porém no céu e no universo renovado, em que as condições do céu serão encontradas também na terra (AP 21.10), de sorte que “ a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar” (Is 11.9), essa visão beatificada equivalerá à comunhão sem pecado e ininterrupta das almas de todos os redimidos com Deus em Cristo, um contemplar “face a face” (1Co 13.12).
Quando em justiça por fim teu rosto glorioso puder ver,
Quando toda noite atroz tiver passado
E me vir acordado ao teu lado,
Para ver a glória permanente,
Então só então estarei satisfeito. (F.F Bulaard, baseado no Salmo 17.15)
Assim se cumprirá a oração de Jesus: “Pai, a minha vontade é que onde eu estivou estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me confiaste, porque amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24).
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
QUINTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-aventurado os misericordiosos, porque receberão misericórdia.
Misericórdia é amor demonstrado em favor de quem vive em desgraça, e um espírito perdoador para com o pecador: Ela abrange tanto um sentimento de bondade quanto um ato bondoso. Vemo-la exemplificada na parábola do bom samaritano (Lc 10), e especialmente em Cristo, o misericordioso Sumo Sacerdote (Hb 2.7).
Embora seja falta de realismo negar que, devido à disposição amorosa de Deus, há evidência de compaixão e bondade ao nosso redor, lembradas e esquecidas, mesmo no mundo dos não-regenerados (At 28.2), a misericórdia de que fala esta bem-aventurança nasce “da experiência pessoal com a misericórdia de Deus” (Lenski). Como tal, ela é uma virtude peculiarmente Cristã, que vale também para as demais características mencionadas nas bem-aventuranças. Todas elas indicam qualidades dos cidadãos do reino do céu. A esse respeito não se deve esquecer que, enquanto os romanos falavam de quatro virtudes cardeais – sabedoria, justiça, temperança e coragem -, a misericórdia não figurava entre elas. E para obter-se um ponto de vista equilibrado de como aparece esta graça no mundo, é justo confrontar At 28.2 com Pv 12.10: “ mas o coração dos perversos é cruel.”
É digno de nota que as escrituras repetidas vezes exortam os crentes a demonstrarem misericórdia, movidos por gratidão, para eles mesmos sejam tratados com misericórdia. Um notável exemplo é a parábola do servo incompassivo (Mt 18.23-25). Ver também Mt 25.31-46; Rm 15.7,25-27; 2Co 1.3,4; Ef 4.32; 5.1; Cl 3.12-14. Essa misericórdia deve ser exercida em favor daqueles que pertencem à “família da fé”, porém não deve limitar-se a eles (Gl 6.10). Na verdade ela deve ser exercida em prol de “todos os homens”, não excluindo nem mesmo aqueles que odeiam e perseguem os crentes(Mt 5.44-48). Percebe-se imediatamente que, se o que está implícito na quinta bem-aventurança fosse posto em prática com maior zelo e consciência, a pregação do evangelho seria muito mais eficaz! Que benção para a humanidade seria!
“Porque misericórdia lhes será concedida.” Aqueles – e tão somente aqueles! – que exercem misericórdia como recompensa, como pode comprovar-se algumas passagens mencionadas no parágrafo anterior, como também de 2Sm 22.26; Mt 6.14-15; Tg 2.13. Quando essa semente de ouro é semeada, efetua-se uma colheita muitíssimo abundante (Mt 7.2; Lc 6.38).
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
QUARTA BEM-AVENTURANÇA
Bem-Aventurados os famintos e os sedentos de justiça, porque eles serão plenamente saciados.
Esta justiça consiste em uma perfeita conformidade com a santa lei de Deus, ou seja, com a sua vontade. É antes de tudo uma justiça por imputação: “Ele [Abraão] creu no Senhor, e isso lhe foi computado por justiça” (Gn 15.6). O homem é incapaz de merecer esse direito diante de Deus. Nenhuma soma de boas obras poderá expiar seu pecado. De fato, “Toda as nossas justiças[são] como trapo de imundícia” (Is 64.6). Nenhum tipo de purificação humana, seja cerimonial ou de outro tipo, pode lavar o pecado: Pelo que ainda que te laves com salitre, e amontoes potassa, continua a mácula da tua iniqüidade perante mim, diz o Senhor Deus”(Jr 2.22). Nenhum mero ser humano é capaz de fazer expiação pelo pecado de seu irmão: “Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode redimir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate” (Sl 49.7). De fato, no tocante ao próprio homem, a situação é inteiramente sem remédio. Sua necessidade principal, básica e irremediável é estar ele em perfeita harmonia com Deus; e este é também o alvo que ele jamais poderá atingir: “como pode o homem ser justo para com Deus?”(Jó 9.2).
Nessa situação irremediável e horrível foi que o filho de Deus, de sua glória e soberania, entrou. Foi ele(juntamente com o Pai e o Espírito, o único e verdadeiro Deus) que veio para o resgate, quando todos os demais fracassaram. “Então disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração está tua lei”(Sl 40.7,8). A maneira como resgate do pecador seria realizado e a salvação providenciada retratada em Is 53: “Mas ele foi traspassado pela nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidade; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo cainho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos”(vv.5 e 6). E assim Emanuel foi destinado a ser “o Senhor justiça nossa”(Jr 23.6). Por intermédio dele, como uma redenção, os pecados de seu povo foram livremente perdoados, de tal modo que Davi podia cantar: “Bem-aventurado é aquele cuja a iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto” Sl 32.1.
Tudo isso, normalmente, era do conhecimento de Jesus quando disse: “Bem-aventurados são os que tem fome e sede de justiça.” Mesmo durante a sua vivencia terrena ele era plenamente conhecedor de sua função como substituto. Não foi precisamente com finalidade de exercer esse oficio que ele deixou o seu lar celestial?(2Co 8.9). E não era precisamente em favor de seu povo que ele iria derramar seu sangue?(Lc 22.19,20; 1Co 11.24,25; cf. Jo 10.11,28; At 20.28; Ef 1.7,14; Cl 1.14; Hb 9.12; 1Pe 1.19; Ap 5.9). Além disso, o fato de que a justiça do homem está baseada na misericórdia de Deus e não nas obras ou méritos humanos é uma verdade que não carecia esperar por Paulo(Rm 4.3,9; Gl 3.6) para ser descoberta . Não apenas por Moisés(Gn 15.6) e Davi(Sl 32.1) a conheciam, mas certamente o Fariseu e o Publicano(Lc 18.9-14; ver especialmente os vv. 13e 14). É verdade que o ensino do Antigo Testamento e o de Jesus preparam o caminho para uma exposição mais detalhada e mais ampla dessa doutrina pelo apóstolo dos gentios.
Não obstante, é evidente que aqui em Mt 5.6 Cristo se refere a uma justiça não meramente por imposição, mas também por comunicação; refere-se não meramente a uma condição jurídica, mas também uma conduta ética; pode-se ver isso de forma clara por meio de Mt 6.1: “Cuidem para que não pratiquem a sua justiça diante do povo”, e ver também Mt 5.10,20-48. As duas (justiças) são inseparáveis. Embora seja impossível que as boas obras justifiquem alguém, é igualmente impossível que uma pessoa justificada possa viver sem praticar boas obras. O termo “justiça”, na forma usada por Cristo, é, portanto, muito abrangente, envolvendo tanto a de caráter forense como a caráter ético.
A relação entre a justiça apresentada por Cristo e a “justiça dos fariseus” está em que a primeira é interior, e a segunda é geralmente exterior; a primeira é do coração, a segunda é predominantemente de aparência exterior; a primeira é genuína, a segunda é com muita freqüência um produto falsificado. Cf. Mt 5.20-6.18.
“ Porque eles serão plenamente saciados” (literalmente: “cheios”). Notar, contudo, que não se trata daqueles que meramente sentem que “algo vai mal”, mas somente aqueles que têm “fome e sede” de justiça é que serão cheios. A justiça imputada e comunicada por Deus deve ser um objetivo de intenso desejo, de ardente anelo e de busca incansável. Cf. Sl 42.1: “Como suspira a corsa pelas correntes das águas...” Cf. Is 55.1; Am 8.1; Jo 4.34; 6.35; 7.37 Ap 22.17.
Como esta fome e sede de justiça serão plenamente saciadas? Pela imputação dos méritos de Cristo. Assim obtemos uma justiça de condição. Pela obra santificadora do Espírito Santo. Assim obtemos uma justiça de condição interior e conduta exterior. Cf Rm 8.3 – 5; 2Co 3.18; 2Ts 2.13. Estas duas (justiças) são inseparáveis: aqueles por quem Cristo morreu são justificados pelo Espírito Santo. Portanto, aqueles cujos pecados são perdoados oferecem sacrifício de ações de graças.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
TERÇEIRA BEM-AVENTURANÇA
(Mt 5.5)
“Bem-Aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”.
Há bem pouca diferença entre “ser pobre em espírito” e ser “manso”. Não obstante, existe uma ligeira distinção, ou seja, que a primeira designação descreve o homem mais como é ele em si mesmo, ou seja, de coração quebrantado, enquanto a segunda o retrata mais especificamente em sua relação com Deus e com seu semelhante.
O que diz aqui sobre o indivíduo manso é um eco de Sl 37.11,22,29,34. Portanto, a fim de sabermos o que se quer dizer pela expressão “os mansos”, faremos bem derivando desse salmo o conteúdo desse conceito. Ele descreve a pessoa que não se ressente. Ela não guarda rancor. Longe de seguir ruminando as injúrias recebidas, ela encontra seu refúgio no Senhor e confia-lhe inteiramente o seu caminho. Tudo ela faz em virtude do fato de que já morreu para toda pretensão de ser justa em si mesma. Ela sabe que não pode reivindicar qualquer merecimento diante de Deus (cf. Sl 34.18;51.17). visto que o favor de Deus significa tudo para tal pessoa, ela aprendeu a suportar com alegria “o espólio de seus bens... sabendo que uma herança melhor e durável a aguarda”(Hb 10.34). Contudo, mansidão não é sinônimo de fraqueza. A mansidão não consiste em falta de firmeza de caráter, uma característica da pessoa que está pronta a curva-se ao sabor de toda brisa. Mansidão é submissão ante qualquer provação, a disposição de sofrer dano ao invés de causá-lo. A pessoa mansa deixa tudo nas mãos daquele que ama e que se importa.
A bem-aventurança dos mansos consiste em que “eles herdarão a terra”. Em certo sentido herdam-na desde já, e isso por varias razões: a. por não darem a devida atenção ao seu próprio enriquecimento, mas, antes, em cumprir sua tarefa na terra; em outras palavras, ao buscar em primeiro lugar acima de tudo o reino de Deus e a sua justiça, “todas essas coisas” ( comida, roupa, etc.) lhe são graciosamente concedida como um dom especial (Mt 6.33). b. Sua própria mansidão os faz uma benção para seus semelhantes, alguns dos quais os abençoarão (Mc 10.30; At 2.44,45; 16.15; Fp 4.18). c. Talvez possuam apenas uma pequena porção desta terra ou de bens terrenos, porém uma pequena porção com a benção de Deus repousando sobre ela é muito mais que as maiores riquezas sem a benção de Deus.
Exceto num sentido muito formal e legal, um homem cuja alma é atingida pelo medo do juízo vindouro possui realmente seus bens terrenos? Ele os possui no sentido de desfrutá-los? Certamente que não! Não é ele quem os possui, e,sim, são eles que o possuem a ele! Uma comparação de duas passagens do livro de Isaías revela quem são de fato os que herdarão a terra:
“Tu Senhor, conservarás em perfeita paz àquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti”(Is 26.3).
“Para os perversos, todavia, não há paz, diz o Senhor”(Is 48.22).
Não são os homens do mundo, e, sim, são os mansos os que sabem que Rm 8.28 é a plena verdade. Portanto, eles – e somente eles! – são os que possuem a terra.
Entretanto, o cumprimento mais pleno da promessa está reservado para o futuro, quando, na volta de Cristo em glória, os mansos herdarão o novo céu e a nova terra, o universo renovado, e no qual habitará a justiça para sempre (AP 21.1).
Herdar a terra indica o seguinte:
a. O cidadão do reino tem direito, pela graça, e esta possessão.
b. Ele certamente a receberá como tesouro inalienável;
c. Ele precisará – e nem mesmo pode – ganhá-la por merecimento próprio
Das profundezas de sua consciência de pobreza espiritual, de seu pranto pelo pecado e de sua mansidão, os cidadãos do reino clamam a Deus pela plena satisfação de sua necessidade espiritual básica, ou seja,a justiça.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
SEGUNDA BEM AVENTURANÇA
MT 5:4
“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.”
De fato, Bem-aventurada é aquela pessoa que, tendo dito: “ Eu aqui pereço de fome”, segue dizendo: “Pai, pequei contra ti.” As pessoas choram por muitas razões: enfermidades, dor, luto, perda material, orgulho ferido, etc. No presente contexto, contudo, o que se vê é um tipo de choro basicamente diferente.
Não é necessário, contudo, limitar esse choro ao que ocorre em decorrência dos próprios pecados individuais de uma pessoa: aqueles pelos quais pessoalmente ofendeu a Deu. Esse tipo de tristeza pode ser deveras pungente(Sl 51.4). Sem dúvidas, porém, mais do que isso é incluso. O regenerado aprende a amar a Deus de tal forma que começará a chorar diante de “ todas as obras ímpias que os ímpios têm cometido de uma forma muito ímpia”(Jd 15). O seu pranto, pois, está centrado em Deus, não no homem. Eles “suspiram e clamam” não somente diante de seus próprios pecados, não somente ante a soma destes com o poder dos ímpios em oprimir os justos(Hb1.4; 2Tm3.12), mas por causa da transgressão do cativeiro”(Ez 9.4).Dilacera-lhes o fato de que Deus, o seu próprio Deus a quem ama, está sendo desonrado. Cf Sl 139.21. Esse tipo de tristeza – “para glória de Deus” – é também notavelmente expresso em Sl 119.136: “ Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei.” Ver também Ed 10.6. Em um comovente capítulo, ao prantear e fazer confissão de pecado, Daniel combina seus pecados pessoais com o de seu povo (Dn 9.1-20). Ao proceder assim, ele roga “Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa, atende-nos e age; não te retardes, por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome” (v.19).
A poderosa onda de emoção que caracteriza a efusão do coração expressa em Sl.119 e Dn 9 se coaduna com o presente contexto, pois a palavra traduzida por chorar, na segunda Bem-aventurança, indica uma tristeza que emana do coração, toma posse da pessoa toda e se manifesta exteriormente.
A Bem-aventurança dessas pessoas consiste nisto: serão consoladas. A tristeza piedosa faz a alma olhar para Deus. Deus, por sua vez, confere consolo aos que buscam para si ajuda dele. É ele quem perdoa, liberta, fortalece e acalma (Sl 30.5; 50.15; Is 15.6,7; Mq 7.18-20; Mt 11.28-30). Assim as lágrimas, como as gotas de chuva, caem na terra e sobem na forma de flores(Sl 126.5; Ec 7.3; Jo 14).
Ás vezes o consolo consiste em que a própria aflição é removida(2Cr 20.1-30; 32.9-23; Sl 116; Sl 38; At 12.5 etc.). entretanto, com freqüência a aflição permanece por algum tempo, mas um peso de glória supera a dor (2Co 4.17; 12.8,9).
Pergunta: Qual é o seu consolo tanto na vida como na morte?
Resposta: Que eu, de corpo e alma, tanto na vida como na morte, não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador Jesus Cristo que, com seu precioso sangue, fez plena satisfação por meus pecados e me livrou de todo o poder do diabo, de tal maneira me guarda que sem a vontade de meu Pai celestial nem um só cabelo de minha cabeça pode cair; antes, é necessário que todas as coisas sirvam para minha salvação. Por isso também me assegura, por meio de seu Espírito Santo, a vida eterna, e me faz pronto e disposto a viver doravante segundo a sua vontade. (2Tm 1.2; 4.7,8; AP 17.14; 19.7).
“Lembre-se, se algo vai mal em nossa vida, é porque não vamos bem espiritualmente”.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
BEM-AVENTURANÇAS
Mt 5.3
“Bem-aventurados (são) os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
O mundo diz exatamente o oposto: “Bem-aventurados são os ricos”, etc. “Jesus diz: Bem-aventurados são os pobres, os que choram, os mansos”. Motivo a condição exterior de alguém poderia ser muitíssimo invejável; no entanto, no final ela se desvanece como um sonho. Deus jamais fez uma alma tão pequena que fique satisfeita com o mundo inteiro. Toda via, são eternos o estado interior e o caráter da alma. Cf. Lc.12.15; 1Co 7.31.
Entretanto, Jesus não proclama que essas pessoas são bem-aventuradas em virtude de serem pobres de bens materiais, ainda da que, em sua maioria, também o sejam. São chamadas de bem-aventuradas por serem pobres em espírito, não em espiritualidade, porém “com respeito a” seus respectivos espíritos; ou seja, são aquelas que se convenceram de sua pobreza espiritual. Tornaram-se consciente de sua miséria e necessidade. Seu velho orgulho foi quebrado. Puseram-se a clamar. “Ó Deus, sê propício a mim, pecador”(Lc 18.13). São de um espírito contrito e tremente diante da Palavra de Deus(Is 66.2; 55.15). Percebam sua total incapacidade(Rm 7.24), não esperam nada de se mesma, e, sim esperam tudo em Deus.
Deles – e tão-somente deles! - , desde agora, é o reino dos céus, ou seja, a completa salvação, a soma total das bênçãos que resultam quando se conhece Deus como rei sobre o coração e a vida. É deles mesmo agora, em princípio. Portanto, são declarados bem-aventurados.
O livro do apocalipse contém duas passagens vívidas que mostram, respectivamente: a) como pode alguém ser pobre embora se julgue rico, e b) Como pode uma pessoa ser rica em meio à sua pobreza. Jesus Cristo, o ressurreto e exaltado, o visitador da igreja, se dirige à insensível Laodicéia da seguinte maneira: 16 Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca;17 pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.(Ap 3.16;17).
Entretanto, ele se deleita com a igreja de esmirna, dizendo: “ Conheço as tuas tribulação (ou aflição), a tua pobresa, mas és rico”(Ap 2.9)
Como, pois, pode o pobre ser considerado rico? A resposta se encontra em passaens extemamente significativa, como: “tenho fartura” (Jacó a Esaú, Gn 33.11); e “todas aas coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”(Rm 8.28). _ara maior confirmação dessa glorosa verdade, ver Sl 23; 63; 73.23-26; 81.10; 116; Pv 15.16; 16.8,19; Jo 1.16; 14.1-3; 17.24; Rm 8.31-39; 1Co 3.21-23; 2Co 4.8; Ef 1.3; 1Pe 1.3-9; 1Jo 5.4; Ap 7.9-17; 17.14; 21.1-7.
Esta série de estudos sobre as bem-aventuranças foram extraidos do comentário do Novo Testamento de William Hendriksen; Mateus volume 1 (editora Cultura Cristã).
“Lembre-se, se algo vai mal em nossa vida, é porque não vamos bem espiritualmente”.